A Prefeitura de Dourados já colocou em circulação a Taxa de Coleta, Remoção e Destinação de Resíduos Sólidos (TCRS) referente a 2026. O contribuinte pode emitir as guias de forma digital e pagar à vista ou parcelar em até dez vezes, com vencimento inicial em 31 de março.

Do ponto de vista técnico, a medida segue um modelo já adotado em diversas cidades brasileiras. Do ponto de vista político e social, no entanto, a cobrança volta a provocar desconforto, principalmente pelos valores praticados, considerados elevados por parte da população.

Mas o incômodo vai além do impacto financeiro.

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A taxa do lixo foi um dos temas mais explorados durante a última campanha eleitoral municipal. À época, candidatos ao Legislativo adotaram um discurso firme: revisão da cobrança, redução de valores e, em alguns casos, até a extinção da taxa.

Passado o período eleitoral, o que se vê é um contraste evidente entre promessa e realidade.

Até o momento, não há medidas concretas que indiquem avanço nesse debate dentro da Câmara Municipal. A taxa permanece em vigor, com os mesmos efeitos diretos no bolso do contribuinte, e sem o protagonismo político prometido anos atrás.

O cenário levanta um questionamento inevitável: o compromisso assumido com o eleitor era real ou apenas estratégico?

A discussão não é isolada. Em outras cidades do país, a cobrança da taxa do lixo enfrentou resistência popular e política. Municípios como Joinville e São José do Rio Preto registraram movimentos que resultaram na revisão desse tipo de tarifa, após pressão da sociedade e atuação mais incisiva do poder público local. Isso demonstra que o debate é possível, e mais do que isso, necessário.

Vale lembrar que o atual prefeito de Dourados foi, durante o período eleitoral, um crítico da taxa do lixo e da forma como ela era conduzida pela gestão anterior. À época, o discurso era de revisão e sensibilidade com o contribuinte. No entanto, já no segundo ano de mandato, o que se observa é a ausência de posicionamento público consistente sobre o tema, além da falta de medidas concretas que indiquem qualquer tentativa de amenizar o peso da cobrança. A mudança de postura, do discurso crítico à prática silenciosa, reforça a percepção de distanciamento entre o que foi prometido e o que, de fato, vem sendo entregue à população.

Enquanto isso, o cidadão segue diante de uma conta obrigatória, agora também inserida em um modelo totalmente digital, que embora moderno, ainda impõe barreiras a parte da população.

A legalidade da cobrança não está em discussão. O que se questiona é a coerência política e a sensibilidade diante de um tema que foi tratado como prioridade em campanha, mas que, na prática, perdeu força após as urnas, e que esse ano chegou mais pesada.

No fim, a conta continua chegando. E com ela, a cobrança, não apenas financeira, mas também de posicionamento.