A crescente probabilidade de ocorrência de um evento forte de El Niño nos próximos meses está colocando em alerta o setor de agronegócio e logística de grãos no Brasil. Em relatório divulgado pelo Santander, analistas avaliam que empresas como a Rumo e a Hidrovias do Brasil podem enfrentar riscos relevantes caso o fenômeno climático afete a produção agrícola ou provoque interrupções no transporte de cargas.

A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) estima mais de 80% de chance de formação do El Niño após junho de 2026 e uma probabilidade superior a 65% de um evento forte ou muito forte entre outubro e dezembro.

O Santander destaca que os impactos podem ir da quebra de safra, especialmente na segunda safra de milho; problemas de navegabilidade nas hidrovias do Norte; redução do ritmo de crescimento dos fretes rodoviários; e pressão adicional sobre a rentabilidade dos produtores rurais.

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Embora o Centro-Oeste não seja tradicionalmente a região mais afetada pelo fenômeno, os analistas observam que o El Niño tende a concentrar as chuvas em períodos mais curtos, ampliando a volatilidade da produtividade agrícola.

Hidrovias podem enfrentar dificuldades operacionais

Um dos pontos de maior atenção no Brasil está na região Norte. O levantamento mostra que, durante episódios de El Niño, o nível do Rio Tapajós fica, em média, cerca de 0,9 metro abaixo dos níveis considerados normais. Essa redução pode comprometer a navegabilidade e afetar diretamente o escoamento de grãos pelo chamado Arco Norte, rota estratégica para exportações brasileiras.

O cenário representa um risco especialmente relevante para a Hidrovias do Brasil, cuja operação depende das condições de navegação na região amazônica.

O estudo também identificou que, em anos de El Niño, os preços dos fretes rodoviários de grãos em Mato Grosso tendem a crescer menos do que em períodos climáticos neutros. Nas principais rotas analisadas, como Sorriso-Miritituba e Sorriso-Rondonópolis, o impacto médio é de pelo menos 10 pontos percentuais negativos na variação anual dos fretes.

Esse movimento ocorre porque eventuais reduções na produção diminuem a demanda por transporte, reduzindo a pressão sobre os preços logísticos.

Rentabilidade do produtor segue pressionada

Além dos desafios climáticos, os produtores mato-grossenses já enfrentam um cenário de margens mais apertadas. O Santander projeta que a rentabilidade das lavouras continuará deprimida na safra 2026/27, em razão dos custos elevados com fertilizantes e defensivos agrícolas.

Segundo o relatório, uma eventual queda de produtividade causada pelo El Niño poderia agravar ainda mais esse quadro, reduzindo a geração de caixa dos agricultores e afetando investimentos futuros no campo.

Exportações de Mato Grosso podem recuar

Nas projeções-base do Santander, Mato Grosso deverá produzir cerca de 100,5 milhões de toneladas de soja e milho em 2026/27, queda de 4% na comparação anual. As exportações combinadas dos dois grãos podem recuar 11%, para aproximadamente 49,2 milhões de toneladas.

A análise de sensibilidade mostra que cenários de menor produtividade poderiam levar as exportações para níveis ainda mais baixos, aumentando os desafios para toda a cadeia logística.

Apesar dos riscos, o Santander avalia que a Rumo continua relativamente protegida graças à diversificação de suas operações. A companhia transporta grande parte dos grãos originados em Mato Grosso e possui participação próxima de 44% nas exportações do estado.

Mesmo assim, os analistas ressaltam que uma combinação de quebra de safra e gargalos logísticos poderia afetar volumes transportados e limitar o crescimento do Ebitda projetado para 2027.

A conclusão do Santander é que o risco para empresas ligadas à infraestrutura de grãos é de intensidade média a alta. O impacto mais severo dependerá da combinação entre problemas climáticos na produção agrícola e eventuais interrupções nas rotas logísticas.

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FONTE/CRÉDITOS: fernandapressinott