Nas manhãs de inverno, existe uma prática comum entre os motoristas esperarem o ponteiro da temperatura subir antes de engatar a primeira marcha. O costume, transmitido entre gerações de condutores, baseia-se na crença de que o veículo precisa atingir o calor ideal para não “engasgar” ou sofrer danos.

No entanto, com a evolução da engenharia automotiva, a necessidade de esquentar o motor do carro parado virou um mito técnico. O que o veículo realmente precisa ao ligar em um dia gelado não é de calor imediato, mas de tempo para que o óleo complete seu ciclo de proteção.

De acordo com Nicole Ronzani, especialista em mecânica, a tecnologia atual eliminou a necessidade do aquecimento prévio. “Esquentar, não. Mas esperar alguns instantes antes de sair é recomendado para que o óleo lubrifique corretamente todas as partes móveis do motor”, explica.

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Ainda segundo a especialista, o antigo hábito tem origem nos veículos de décadas passadas. “Surgiu dos carros carburados; eles tinham afogador e você precisava de uma mistura mais rica até o carro esquentar. Principalmente os motores a álcool, que custavam mais a pegar”, detalha.

A diferença entre motores antigos e modernos

A grande mudança reside na forma como o combustível é misturado ao ar. Nos sistemas antigos, esse processo era mecânico e muitas vezes manual, enquanto hoje tudo é gerido por sensores e computadores de bordo.

“Os carros modernos calculam a porcentagem entre o ar e o combustível eletronicamente, e se ajustam conforme as necessidades de temperatura, pressão e tipo de combustível”, afirma Nicole. Nos modelos carburados, o uso do afogador enriquecia a mistura com mais combustível para garantir a partida, retornando ao normal apenas quando o motor atingia a temperatura de trabalho.

Atualmente, essa compensação é instantânea. No entanto, a física dos fluidos permanece a mesma. Durante a noite, o lubrificante sofre a ação da gravidade.

“O óleo sempre vai parar no cárter do motor, que é a cuba que retém o óleo. Em uma manhã fria, algumas viscosidades podem levar mais tempo para chegar à parte de cima, tomando mais tempo para lubrificar todas as partes móveis”, observa Nicole.

O risco da pressa: o desgaste na partida a frio

O momento da ignição é o ponto crítico para a vida útil de qualquer propulsor. Sair imediatamente e acelerar forte pode comprometer componentes vitais que ainda não receberam a camada protetora de óleo.

“O maior desgaste do motor ocorre na partida a frio. Acelerar um motor que ainda não está lubrificado pode causar desgaste prematuro do comando de válvulas, que é a parte mais distante do cárter”, alerta a especialista.

Para evitar prejuízos a longo prazo, a recomendação não envolve minutos de espera, mas sim segundos de paciência. “Não tem um tempo máximo, mas eu diria no mínimo 30 segundos, tanto para motos quanto para carros”, orienta Nicole.

Segundo ela, o erro mais comum dos motoristas é a falta de paciência ao girar a chave. O ideal é ligar o contato, aguardar os sistemas eletrônicos carregarem por alguns instantes e só então dar o arranque.

Como dirigir nos primeiros minutos

Mesmo que o motorista não precise ficar parado, a forma como ele conduz o veículo nos primeiros quilômetros faz diferença. A regra é a progressividade. “Não é necessário esperar o carro esquentar, mas é importante esperar ele atingir a temperatura de trabalho antes de pisar fundo no acelerador. Então sim, saia devagar nos primeiros minutos, sempre, até em dias quentes”, aconselha a mecânica.

Essa precaução vale para todos os tipos de veículos, incluindo flex, diesel e automáticos. Para os modelos equipados com turbo, a especialista acrescenta um cuidado extra, mas para o momento do encerramento da viagem: “Em alguns carros com turbo refrigerado a óleo, é recomendado que se espere um pouco parado antes de desligar o motor para que o óleo circule e resfrie a turbina”.

Porém, se o carro apresenta dificuldades persistentes em manhãs frias, pode ser sinal de que a manutenção está defasada. Nicole aponta três sintomas principais que indicam a necessidade de uma revisão: “Quando demora muito a pegar, mesmo que o tanque esteja com gasolina; quando apresentar falhas ou oscilações no motor logo que o veículo é ligado; e quando ele morre logo depois de pegar”.

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FONTE/CRÉDITOS: lucastmachado