Mutirão de combate à epidemia de febre chikungunya na Reserva Indígena de Dourados revelou um cenário preocupante. Somente na segunda-feira (9), equipes envolvidas na ação identificaram 171 focos do mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença que já vem sendo tratada como epidemia pelas autoridades de saúde.

Durante os trabalhos realizados na aldeia Jaguapiru, 664 imóveis foram vistoriados. Em 288 deles foi necessário realizar tratamento específico para eliminar larvas do mosquito. A maior parte dos focos estava em caixas d’água, pneus e locais com acúmulo de lixo. Em alguns imóveis também foi feita borrifação com equipamento costal para reforçar o controle do vetor.

As ações contam com a participação de diferentes órgãos e equipes de saúde, além do apoio de lideranças indígenas das aldeias Jaguapiru e Bororó. Os trabalhos continuaram na terça-feira (10), com a meta de vistoriar o maior número possível de residências. A prioridade tem sido a aldeia Jaguapiru, onde foi registrada a maior concentração de casos da doença.

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De acordo com o boletim epidemiológico mais recente, já são 99 casos confirmados de febre chikungunya na reserva indígena, além de outras 183 notificações que ainda estão em investigação.

Durante as inspeções realizadas nas moradias, um dos principais problemas identificados foi a presença de criadouros em recipientes que armazenam água. Muitas famílias recorrem ao armazenamento de água da chuva por causa da irregularidade no abastecimento. Mesmo nas casas com água encanada, a distribuição instável leva moradores a manter reservatórios cheios por longos períodos, situação que favorece a proliferação do mosquito.

Para combater as larvas em locais onde a água não pode ser descartada imediatamente, equipes utilizam produtos biológicos conhecidos como larvicidas ou bioinseticidas. Esses produtos são específicos para eliminar as larvas do Aedes aegypti e não representam risco para pessoas ou animais domésticos.

Diante desse cenário, cresce também a preocupação com a estrutura da atenção básica em saúde no município. Especialistas e profissionais da área apontam que o combate eficaz a doenças transmitidas pelo mosquito depende diretamente do trabalho contínuo de agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, que atuam na prevenção, orientação e monitoramento dentro das comunidades.

No entanto, Dourados enfrenta atualmente um déficit considerável desses profissionais. Inclusive, candidatos aprovados em concurso público realizado em 2024 seguem aguardando convocação, sem manifestação clara por parte da administração municipal sobre quando serão chamados.

A falta desses trabalhadores na linha de frente da saúde preventiva pode estar contribuindo para o agravamento de situações como a atual epidemia. Sem a presença constante de agentes nas comunidades, o trabalho de orientação, fiscalização e eliminação de criadouros perde força, abrindo espaço para a proliferação do mosquito.

Enquanto isso, os números de casos aumentam e a população enfrenta as consequências de uma estrutura de prevenção que muitos consideram insuficiente. Para especialistas da área, reforçar a atenção básica com a convocação de profissionais já aprovados em concurso poderia ser um passo importante para evitar que crises sanitárias como essa se agravem ainda mais.